Opinião

Do pensamento cartesiano à teoria sistêmica: lembrar-se para curas e outras coisas mais
Se olharmos para a pesquisa do câncer como exemplo, a estratégia de dividir o fenômeno complexo em partes menores para compreendê-lo tem nos permitido a aquisição de conhecimento detalhadamente gigantesco dessas partes.
Por Ana Paula de Melo Loureiro - 17/05/2026


Imagem: Reprodução


A ciência moderna tem suas bases no pensamento desenvolvido por René Descartes (1596-1650), que na obra Discurso sobre o Método indica um caminho seguro para o conhecimento da verdade. Descartes propõe a condução da razão por regras, de modo a evitar precipitações, opiniões infundadas ou herdadas da tradição ou crenças. São quatro as regras principais apresentadas:

1 - 'Aceitar algo como verdadeiro somente após análise rigorosa de evidências, ou seja, chegar à verdade a partir da dúvida, e não aceitar nada em razão de pressa, hábito ou autoridade;
2 - Dividir cada problema em tantas partes quantas forem necessárias para melhor compreendê-lo, o que constitui o pensamento analítico cartesiano;
3 - Conduzir o pensamento de forma ordenada, começando pelos elementos mais simples e fáceis de conhecer, e avançando gradativamente aos mais complexos;
4- Fazer revisões completas para garantir que nada foi omitido, buscando evitar lacunas, saltos de raciocínio e conclusões apressadas.

Temos grande influência desse pensamento na forma como a ciência investiga as doenças e seus mecanismos. Se olharmos para a pesquisa do câncer como exemplo, a estratégia de dividir o fenômeno complexo em partes menores para compreendê-lo tem nos permitido a aquisição de conhecimento detalhadamente gigantesco dessas partes. Conhecemos como diversas substâncias provocam lesões no DNA que podem propiciar mutações em determinadas posições de genes envolvidos em processos de replicação, parada de crescimento e morte de células, entre outros; uma variedade enorme de vias de sinalização dentro e fora das células e seus mecanismos de ativação e inibição que podem levar a proliferação descontrolada e outras alterações que favorecem transformações fenotípicas, invasão e metástase; papéis de antioxidantes, de radicais livres e outras espécies reativas nesses processos; alterações do metabolismo das células para sustentar o processo replicativo, ainda que a chegada de nutrientes e oxigênio seja desfavorável; passando pelo conhecimento da epigenética, angiogênese, interação com o sistema imune e outras partes cuja inclusão aqui tomaria grande espaço.

Esse modo de investigar é analítico: o tumor é decomposto em mecanismos moleculares, celulares e bioquímicos. Essa abordagem permitiu avanços extraordinários, tais como a identificação de mutações associadas à carcinogênese e o desenvolvimento de terapias-alvo. Permitiu também a constatação do quão complexo é o sistema chamado câncer.

O câncer é um sistema dinâmico, formado por células tumorais, matriz extracelular, vasos sanguíneos, células do sistema imune, fibroblastos, metabolismo local, hipóxia, exposição ambiental e condições do organismo como um todo. Além disso, as células cancerosas evoluem, adaptam-se, geram clones com vantagem replicativa e modificam o ambiente ao redor. Portanto, compreender as partes tem propiciado avanço enorme, mas também revela o quão imprescindível é a evolução no sentido do conhecimento holístico das redes de eventos, para chegarmos a tratamentos mais eficazes.

Precisamos compreender as relações, os fluxos, os contextos e os equilíbrios instáveis que fazem de um conjunto algo mais complexo do que a soma de seus componentes. Há ainda fenômenos em que a parte só ganha sentido dentro da rede de relações que a constitui.

Existem ações nesse sentido. Caminhamos para a era em que o estado de saúde de cada indivíduo e de populações poderá ser caracterizado por avaliações que integrarão diferentes níveis de dados biológicos amplos (genômica, epigenômica, transcriptômica, proteômica, metabolômica, exposômica, dentre outros), informações clínicas, e o respectivo contexto de vida, considerando a influência de fatores sociais, econômicos, culturais e comportamentais. A essa abordagem emergente que visa à saúde integral ao facilitar ações que previnam o desenvolvimento de doenças, promovam diagnósticos precisos e precoces, e tornem os tratamentos mais eficazes, denominamos aqui Saudômica – termo até o momento não detectado no nosso idioma, segundo pesquisa no Google em 1 de maio de 2026.

Como colocado pelo professor Fábio Konder Comparato, em seu livro Ética – Direito, Moral e Religião no Mundo Moderno: “Em um sistema, o todo é, em certo sentido, superior à soma de suas partes componentes, pois estas mantêm sempre, entre si, um relacionamento dinâmico, de tal sorte que, modificada qualquer das partes, modifica-se inevitavelmente o todo. Mas essa totalidade, assim estruturada de modo orgânico, só cobra sentido quando vista, ela também, como parte de um todo maior, estruturado organicamente, e dentro do qual ela exerce uma função determinada, e assim por diante”. A teoria geral dos sistemas (ou teoria sistêmica) foi concebida na biologia pelo biólogo Ludwig von Bertalanffy, na década de 1940, mas sua aplicação se estende ao ser humano, considerando-se sua complexidade individual e social.

Indo além da biologia, temos a universidade como um sistema complexo, que não se reduz à soma de suas atividades formais. Ensino, pesquisa, extensão, formação ética, produção de conhecimento, participação em políticas públicas e responsabilidade social não são ações independentes: elas interagem, entram em tensão, podem gerar efeitos imprevistos e determinam, conjuntamente, a qualidade da vida acadêmica. Uma universidade de destaque não é só aquela que acumula indicadores isolados burocráticos de “excelência”, mas aquela que consegue articular seus componentes direcionando-os a um projeto intelectual, formativo e social coerente. O mesmo é válido para cada um dos sistemas dentro desse sistema maior.

Consequentemente, a universidade precisa formar intérpretes de sistemas complexos: pessoas capazes de identificar relações, reconhecer interdependências, compreender contextos, lidar com incertezas e elaborar soluções sem agravar outros pontos do sistema.

Educar, pesquisar, curar e conviver são práticas que exigem atenção às relações entre as partes. Em saúde, uma doença não pode ser compreendida apenas como alteração localizada em uma molécula, célula ou órgão; ela implica organismo, ambiente, história de vida, condições sociais e possibilidades terapêuticas. Na educação, a aprendizagem não depende apenas da transmissão de conteúdo, mas da relação colaborativa constante entre professor e estudante, método, linguagem, escuta e avaliação. Na pesquisa, uma descoberta significativa raramente emerge de uma ação isolada: ela depende de redes de colaboração, infraestrutura, financiamento, tempo, liberdade intelectual, bem como da cultura institucional. Na convivência universitária, conflitos, sofrimentos, estresse não devem ser entendidos apenas como falhas ou cacoetes individuais, mas também como sintomas de formas de organização, comunicação e reconhecimento.

A visão sistêmica pode, portanto, renovar a cultura universitária. Ela favorece as pesquisas interdisciplinares ao estimular a aproximação entre campos que observam o mesmo fenômeno com perspectivas diferentes. Contribui para uma avaliação acadêmica menos reducionista, ao lembrar que a qualidade de uma trajetória não se avalia apenas por números, mas também pela qualidade da produção e por originalidade, formação de pessoas, cooperação, impacto social, integridade e contribuição institucional. Concorre para a implantação de ambientes de trabalho saudáveis, pois desloca o foco exclusivo da produtividade individual para as condições que tornam o trabalho intelectual possível, sustentável e eticamente orientado. E, assim, conduz ao enfrentamento mais eficiente de questões científicas de crescente complexidade, como as emergentes na pesquisa do câncer.

Do mesmo modo, uma visão sistêmica pode inspirar políticas institucionais baseadas menos na competição permanente e mais na cooperação realmente produtiva e responsável. Isso significa compreender que a excelência acadêmica depende de ecossistemas favoráveis que se traduzem em grupos integrados, circulação de ideias, apoio aos estudantes, valorização da diversidade intelectual, canais confiáveis de diálogo e mecanismos efetivos de prevenção de abusos. A universidade, ao pensar sistemicamente, percebe que seus resultados mais nobres não nascem apenas do desempenho de indivíduos excepcionais, mas da qualidade das relações que consegue cultivar.

Nesse sentido, lembrar a teoria sistêmica é também lembrar que a universidade cumpre melhor sua missão quando ensina a separar para compreender, mas também a religar para avançar significativamente no conhecimento.


Ana Paula de Melo Loureiro
Professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP

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